Viver para conservar

Desde muito pequenos nós, seres humanos, nos acostumamos a fazer escolhas. Como quando nossas mães nos ofereciam um simples pirulito e nos perguntavam qual o sabor desejado, ou aquela tia distante nos perguntava qual a cor predileta para então comprar algo no mesmo tom. Porém, conforme crescemos as escolhas acabam se tornando cada vez mais complexas e cada tomada de decisão trás consigo consequências que podem ser positivas ou negativas.

Foi assim comigo. Decidi me tornar bióloga quando ainda era criança. A afinidade especialmente direcionada para animais silvestres desabrochou desde muito cedo. Meus brinquedos? Bichos. Desenhos que eu assistia? Tinham que ter animais no contexto. Minha principal atividade em casa? Passar o dia todo no quintal observando caracóis e passarinhos, enchendo meus pais de “porquês” absolutamente inesperados e inexplicáveis.

Essas simples escolhas me tornaram a profissional que hoje sou. Ingressei em um curso de biologia cerca de quinze anos atrás e sou viciada no assunto até os dias atuais. Iniciei minha carreira profissional com ênfase em fauna no interior do Zoológico de São Paulo e diariamente aprendi lições ministradas pelos excelentes profissionais, que são em sua maioria absolutamente apaixonados pelo que fazem. Aprendi também incontáveis lições com os seres residentes do zôo – a bicharada que vive por lá e que aguça nossos sentidos a fim de compreendê-los melhor, seja referente à sua dieta, seu comportamento, entre outras questões. Ao contrário do que a maioria das pessoas pensam, zoológicos possuem sim importância crucial em diversos aspectos. Muitos deles possuem sérios programas de reprodução e até mesmo reintrodução de espécies ameaçadas de extinção, além de contribuírem diariamente para a educação ambiental de centenas de milhares de visitantes que passam anualmente por lá. Em cinco anos de zoológico, aprendi que indivíduos cativos têm importância igual ou maior que indivíduos de vida-livre e foi lá mesmo que despertei ainda mais a curiosidade em compreender melhor o mundo da conservação.

Após este período no zoo iniciei outro tipo de trabalho com fauna. Desta vez em um Centro de Triagem de Animais Silvestres (CETAS) e lá, a realidade do nosso país ficou ainda mais clara. A instituição recebia visitas quase que diárias da Polícia Ambiental, que trazia consigo animais oriundos das mais diversas fontes. Canários e pássaros pretos exaustos após enfrentarem inúmeros campeonatos de canto, saracuras mutiladas em função do maquinário que garantia a limpeza de terrenos para expansão imobiliária, preguiças com mãos e pés queimados após tentarem se deslocar utilizando fios que interligam um poste ao outro, inúmeros felinos órfãos ou atropelados. Poderia listar mais diversos exemplos, que compartilham um único e gritante fator entre si: todos gerados através da ação humana. O nosso desenvolvimento literalmente atropela a vida selvagem que habita nossas matas.

Além do aprendizado diário, o CETAS me proporcionou momentos inesquecíveis. Alguns incrivelmente bons, como a liberação de passeriformes previamente capturados para o tráfico ilegal, e outros muito melancólicos, como a eutanásia de alguns indivíduos gravemente mutilados ou que tiveram boa parte do corpo queimado em função de incêndios criminosos. Cada experiência foi válida, tanto as boas quanto as ruins. Algumas me nutriram de esperança, outras tornaram minha casca mais grossa para lidar com certas realidades que nosso país enfrenta.

Após alguns anos trabalhando em cativeiro, me envolvi em um estudo voltado aos felinos na Serra do Mar. Lugar incrível, situado no coração da Mata Atlântica paulistana, porém, eventuais encontros com caçadores e palmiteiros eram inevitáveis, e em momentos como estes, o medo e a sensação de impotência preenchiam os pensamentos. Após sofrer uma ou duas ameaças, deixei de “explorar” e conhecer mais a fundo um dos lugares mais incríveis que preenche grande parte do Brasil.

Coloquei na balança a vida no cativeiro e a vida-livre, para ver qual lado pesava mais. O cativeiro me permitia conhecer e conviver com as mais variadas espécies, enquanto que a natureza me permitia encontrar com algumas destas espécies habitando sua própria casa – a mata – porém, comprometia minha integridade física e moral.

Foi aí então que o Projeto Onçafari surgiu na minha vida. O ano era 2011 e eu ainda enfrentava um dilema na carreira quando uma porta se abriu no pantanal sul-mato-grossense. A proposta? Através de um processo denominado habituação, agregar valor ao maior predador das Américas, a onça-pintada. Ao ouvir a ideia, pensei que era uma das coisas mais malucas que já havia escutado no mundo da Biologia, mas topei conhecer o local e o ideal.

Araras azuis vocalizando logo de manhazinha, tatus-pebas forrageando em meu quintal, antas atravessando a trilha em frente meu dormitório, tamanduás bandeiras riscando minha porta com suas poderosas garras a fim de derrubar alguns cupins para se alimentarem. Este era o cenário que havia encontrado nas minhas primeiras horas de Pantanal.

Na segunda noite, me deparei com minha primeira onça de vida-livre, a Natureza, filha da Esperança. A propósito, nomes estes bem propícios para iniciar com o pé direito uma possível carreira in situ após tantos anos trabalhando no cativeiro.

Hoje, após quase sete anos trabalhando em vida-livre no Onçafari, também exploro diariamente os aspectos mais singelos que envolvem e caracterizam esta espécie. Além de comprovar para proprietários de terras que as onças valem mais vivas do que mortas, tivemos sucesso ao realizar a primeira reintrodução de onça-pintada no Pantanal.

A reintrodução bem sucedida nutre um sentimento de dever cumprido aliado a um “gostinho de quero mais”. Como quando estamos preparando a receita de um bolo que fica muito gostoso e compartilhar com os parentes e amigos é a única coisa que pensamos.

Quantas pessoas têm a sensibilidade de plantar uma semente após ingerir uma fruta ou um legume? A maioria esmagadora das pessoas consome uma fruta e descarta suas sementes no lixo sem se dar conta de que dentro delas existe uma única mensagem: a propagação. Toda semente é formada por tecidos especializados em germinação, que darão origem a raízes, caules, folhas, flores, frutos e outras sementes, que carregarão dentro de si o mesmo objetivo da planta-mãe, a disseminação.

Viver para conservar é carregar dentro de si o mesmo ímpeto de uma semente. É gastar energia para romper uma camada densa de adversidades e ainda assim, germinar e propagar mudanças urgentes nos valores usuais da sociedade. Talvez desta forma consigamos mudar o cenário ambiental atual imediatamente, e não fazê-lo somente para as futuras gerações. A conservação tem pressa.

 

Autora


Lilian Elaine Rampim
Bióloga- coordenadora geral do Projeto Onçafari.

 

 


 

Comentários