Desmatamento e a importância da economia circular

O Desmatamento no Brasil

Um estudo recente publicado na conceituada revista Nature pela Universidade de Maryland afirma que o Brasil é o país com maior índice de desmatamento nos últimos 34 anos. Entre 1982 e 2016 o nosso país desmatou o mesmo tanto que a Rússia, Canadá, Paraguai e Argentina juntos. Enquanto o restante do mundo nesse período teve um aumento de 7,1% das superfícies arborizadas, o Brasil apresentou um desmatamento intenso. Os dados deste estudo divergem de outro publicado anteriormente pela ONU que considerava apenas áreas florestais. O estudo de Maryland é mais completo e preciso visto que considera outras superfícies cobertas por árvores através de imagens de satélites.

A principal causa do desmatamento no Brasil é a pecuária, responsável por mais de 60% das áreas desmatadas. Em seguida vem a extração de madeira, agricultura, hidrelétricas, queimadas, mineração e expansão urbana. No caso da agricultura, vale lembrar que 1/3 da soja consumida no mundo é produzida pelo Brasil, e 80% dessa soja é destinada à ração animal. Portanto, o consumo de carne acaba sendo o principal responsável pelo desmatamento.

Consequências

Como consequências desse desmatamento surgem diversos problemas ambientais. A começar pela escassez de água. Desde os primeiros anos na escola aprendemos que a vegetação é responsável por permitir que a água da chuva infiltre no solo e reabasteça os lençóis freáticos, e que, do contrário, a água da chuva iria cair sobre o solo e correr direto para os rios, infiltrando muito pouco no solo, além de causar erosões e assoreamentos. Reabastecer os lençóis freáticos é necessário para armazenar a água da chuva no subsolo mesmo nos períodos de estiagem, e assim os rios oferecerem água à população durante todo o ano. Mas a escassez de água já é uma realidade, até mesmo onde antes nunca se tinha ouvido falar em seca e racionamento.

Outro problema, menos notável, mas tão grave quanto, é a perda de biodiversidade. Muitas espécies de plantas, animais, e outros organismos estão se extinguindo mesmo antes de serem conhecidos. Outros tantos, já conhecidos, têm suas populações drasticamente reduzidas ao risco iminente de extinção. A ausência do habitat natural para as espécies, e de uma comunidade trófica equilibrada, propicia a ocorrência de pragas em lavouras, e a necessidade crescente de pesticidas nos alimentos para combater estas pragas.

Esta alteração em escala continental na natureza tem desencadeado uma série de alterações climáticas, afetando os regimes de chuva, temperatura e umidade, comprometendo a qualidade de vida das pessoas e trazendo diversos prejuízos econômicos. Na medida em que a sociedade de desenvolve, o impacto no ambiente aumenta como também aumenta a necessidade por água e outros recursos naturais. Assim, a conta não fecha. E a cobrança virá a galope.

Alternativas

Sob uma ótica ampla do desmatamento, nota-se que a sua maior causa é a necessidade de produção de energia. Esta energia pode ser na forma de alimento (carne e vegetais), seja na forma de eletricidade (usinas hidrelétricas e termoelétricas), ou na forma de combustível (carvão, cana para álcool, palma para biodiesel, etc.). Reverter este quadro nos obriga a adotar estratégias de produção de energia limpa. Ou seja, que causem menos impacto no ambiente, e nos permita interagir de forma mais harmônica. Eu destaco duas ações como as principais soluções.

A primeira é a adoção de proteína de artrópodes como fonte alternativa de proteína animal. Esta ação já é uma realidade, mas que tem como principal obstáculo o paradigma cultural do ocidente em consumir este tipo de animal. Outra ação que considero urgente é a substituição de lavouras de monocultura por sistemas agroflorestais. Esta opção de produção traz como resultado um incremento substancial na diversidade e qualidade dos alimentos produzidos. Estes seriam livres de agrotóxicos, o que protege o solo contra erosão, além de favorecer o reabastecimento dos lençóis freáticos pela absorção da água da chuva no solo.

Também, a matriz energética hidrelétrica no Brasil precisa ser complementada urgentemente pela matriz fotovoltaica e também pela eólica (por que não?) nas áreas urbanas, em superfícies ociosas. E a reciclagem de metais deve ser fortemente estimulada para reduzir a crescente necessidade de extração destes recursos naturais.

Conclusão

Assim, em última análise, o que precisamos é de um conjunto de políticas públicas, baseadas nesta compreensão do problema, para incentivar e acelerar as transformações que precisam acontecer! Tudo isto sob os pontos de vista cultural, produtivo, econômico e ambiental, para dessa forma promover a transição de uma economia linear para uma economia circular. Sustentabilidade não é modinha. Os seus três pilares (social, ambiental e econômico) devem se desenvolver de maneira sinérgica para construirmos um futuro em que não substituamos um problema por outro, mas sim estabeleçamos uma relação com o nosso ambiente que seja verdadeiramente sustentável.

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14/1/2019




Guilherme Lima


Biólogo especializado em Botânica e CEO na Vivere Mudas





Bushnell










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